O hoje se desfaz em memórias
Voltarei para casa
Esquecerei o Lago
As ruínas de antes de antes de ontem
Os Imãns e as mesquitas
os véus, o mistério, o aroma de chá e fumo dos salões escuros
As portas azuis, o mediterrâneo, as civilizações.
Virá o oceano
O pai e a mãe a esposa
a incerteza e o repouso
o cotidiano de anos atrás
devorando as entranhas aventureiras
e acalmando a alma.
Até quando?
Maktub maktub, inshallah!
O dia quente
o pó seco
um deserto vivo
as areias,
lâminas
o vento,
fervente
o suor seca nos poros
o muco nas narinas
a sede infinita
poucos olhares
poucos dinares
poucas verdades
máscaras nossas de cada dia nos dai hoje
No sol o vazio
Dias longos de imensa angústia
ao meu lado minha fé derretida em areia grossa
sem alma sem casa sem nada
deserto
não há trégua
somente ilusão de felicidade
martírio de uma vida sem luz
apesar do sol
apesar do dia claro
arrastando-se por horas a fio
sem frio
sem brilho
sem nada
mascaradas as tristezas
sem curar as feridas sujas
modorrento verão fétido
vamos seguir a trilha
vamos ser boiada
vamos fingir amor
vamos viver sem cor
vamos
vamos
vamos
e só
Nada queima mais que a distância
terrível ausência de mim
tudo se mostra em tons sépia
passado e futuro presos
no mesmo porta retratos
emoldurados como se iguais
sem gosto
sem cheiro
sem cor
sem mim
sem a alegria que tenho
sem a energia que busco
sem nada
sugado
sem mim
Entre a terra e a lua
vácuo
entre o véu e os olhos
lágrima
entre a má e a amada
alma
entre a Deus e o cão
fé
entre o meu e o teu
nosso
entre a o som e o surdo
onda
entre a mão e o murro
abuso
entre eu e Eu
o impenetrável e inexplicável vazio que dilacera o pouco que restou
Vem o sol passando pela janela
é hora
de ir embora
de deitar-se ao mar
de abandonar
os corações perdidos
passivos
adormecidos
passa pela janela e eu desespero
vem a noite morna
inverno estranho
inferno medonho
das estrelas poucas
das lembranças roucas
das angústias loucas
O azul se derrete em dourado
que se transmuta em piche breu
Quem sou eu?
pergunto ainda
Quem sou eu?
O corpo pede descanso
os ohos pedem repouso
as mãos pedem carícias
peripécias de cama e carne
nos vãos nas frestas na alma
Na noite os uivos e suspiros
meus e desconhecidos
O que tenho de meu?
nunca basta
nunca bastou
e é na noite
morna e escura
crua e dura
que eu pergunto
Quem sou eu?
Quem sou eu que caço em círculo
meus mesmos fantasmas de sempre
se sentam a mesa
tomam chá
pedem torradas Petrópolis
como se estivessem na Colombo
são íntimos
tão meus.
Não pedem licença
invadem minha ceia
me entopem as veias
fantasmas sem dó.
Quem sou eu?
Quem sou eu?
Saberão eles quem sou eu?
Me farto da noite morna
mas não há porta a se abrir
não há como fugir
não há modeo de fingir
até que volte o sol.
O jardim meu
floresceu e fenesceu
morreu
pétalas que o vento leva
sementes que a terra nutre
jardim meu
No Morro da Urca
veja a flor tão bonita
semente que o vento levou
orgulho meu
a liberdade que o vento deu
fez tão bem
achou adubo
cresceu
madurou e virou flor
o cão vai
o cão volta
a areia da praia o vento carrega
a chuva não veio
não sinto seu cheiro
mas lembro seu cheiro
vou sempre lembrar
a vida ensina
ensinam a terra e o ar
na hora de recomeçar
o jardim meu
Fura a a fúria e fica
fingindo
fantasia o que é fatal
velha arapuca do sentimento
você já esteve lá
labirinto do cíclico coração maldito
saiu e olhou o céu
respirou, raciocinou, relaxou
mas era ilusão
miragem tola da arrogância
e continua preso
Não há como escapar
As cinzas repousam inertes
não são nada
apenas lembranças amargas de um cigarro ido
consumido pela primeira chama
o tabaco se faz fumaça
e fascina
inebria a seu modo todo seu
traz uma falsa sensação de bem estar
e por fim vira cinza
como a ilusão
Aprecie a dor da desilusão rasgando sua garganta
este dilacerar não permite escolhas
incríveis fragilidades humanas
inocentes fragilidades humanas
há apenas cinzas de bem-quereres
pousadas ao léu no cinzeiro das vaidades
O gênio da lâmpada vem depressa
passa correndo, corrido, pisca, te pisca
sono
passado vem depressa
passa correndo, corrido, pisca, te pisca
hálito quente
boca cerrada
quente respirar
a vida inteira passou
o gênio da lâmpada volta depressa
passa correndo, corrido, pisca, te pisca
tchbum!!
hora de gelo da vida real